Produção orgânica de hortaliças no litoral sul catarinense: Resultados de pesquisa – Parte III

Autores
Antônio Carlos Ferreira da Silva, engenheiro agrônomo, M.Sc., pesquisador aposentado da Epagri/Estação Experimental de Urussanga, SC, e-mail: ferreira51@ymail.com

Luiz Augusto Martins Peruch, engenheiro agrônomo, Dr., pesquisador da Epagri/Estação Experimental de Urussanga, SC, e-mail: lamperuch@epagri.sc.gov.br

Publicação:  O trabalho faz parte do Boletim Didático nº 88 “Produção orgânica de hortaliças no litoral sul catarinense” publicado pela Epagri. Interessados em adquirir a publicação completa e ilustrada com 205 páginas, devem entrar no site: www.epagri.sc.gov.br


Ainda nos dias atuais, grande número de pessoas ligadas à agricultura sustenta a ideia de que não é possível produzir alimentos sem o uso de adubos químicos solúveis e agrotóxicos. Em função disso, alguns mitos a respeito da agricultura orgânica foram criados e divulgados pelo mundo. Entre eles, destacam-se: “A agricultura orgânica é de alto risco, cara e que exige muita mão de obra. A agricultura orgânica, além de reduzir a produtividade, proporciona produtos orgânicos de padrão comercial inferior e inadequado às exigências dos consumidores”.
A literatura existente, embora ainda escassa, tem mostrado que as crenças sobre agricultura orgânica não são verdadeiras. Conforme pode ser verificado na bibliografia citada e consultada deste boletim, já existem trabalhos que comprovam as vantagens do cultivo orgânico em relação ao convencional para diversas espécies.
Dentre as culturas estudadas no sistema orgânico, as hortaliças, caracterizadas por grande número de espécies, ciclo curto, utilização intensiva do solo e insumos e alta susceptibilidade a doenças e pragas, especialmente quando mal manejadas, apresentam poucos resultados de pesquisa.
A Epagri, por meio das Estações Experimentais em todo o Estado de Santa Catarina, tem contribuído com trabalhos de pesquisa visando à produção de hortaliças no sistema orgânico com resultados promissores. A EEUr, a partir de 2000, concentrou esforços em pesquisas com base agroecológica em hortaliças, especialmente no cultivo de batata e, posteriormente, nas culturas de cebola, tomate, repolho, couve-flor, brócolis, cenoura, alface, beterraba, batata-doce e feijão-de-vagem, com o objetivo de verificar a viabilidade técnica e econômica do cultivo orgânico. A seguir, serão apresentados os resultados de destaque obtidos nos cultivos orgânicos de repolho, couve-flor, brócolis e cenoura.

Repolho, couve-flor e brócolis  
As doenças não são limitantes para a produção de repolho, couve-flor e brócolis graças ao grande número de cultivares e híbridos resistentes lançados anualmente no mercado. As pragas (traças, lagartas e pulgões), eventualmente, podem limitar a produção se não forem manejadas quando necessário. O controle biológico com produtos à base de Bacillus thuringiensis e o óleo de nim a 0,5% são eficientes no manejo dessas pragas.
O desconhecimento dos cultivares e híbridos adaptados para cada época de plantio, no entanto, pode limitar a produção dessas espécies nos sistemas de cultivo orgânico e convencional.
Pesquisa realizada na EEUr no período de 2003 a 2007 identificou os híbridos de repolho, couve-flor e brócolis mais promissores para as diferentes épocas de plantio no cultivo orgânico (Peruch & Silva, 2006).
Plantio de primavera (média de 2 anos) 
Repolho: Fuyutoyo (65t/ha); Ombrios (60,2t/ha); Emblem (57,8t/ha) e AF-528 (57,2t/ha). O peso das cabeças variou de 2,3 a 2,6kg.
Couve-flor: Barcelona Ag-324 (24,6t/ha); Silver Streak (24t/ha) e Júlia F1 (23,7t/ha). O peso das cabeças variou de 950 a 1.000g.
Brócolis: Legacy (20,4t/ha) e AF-567(14,8t/ha), com peso médio de 600 e 730g respectivamente.
Plantio de outono (média de 2 anos)
Repolho: Fuyutoyo (51,8t/ha); AF-528 (45t/ha) e Emblem (37,7t/ha). O peso das cabeças variou de 1.335 a 2.070g;
Couve-flor: Júlia F1 (17,8t/ha); AF-1169 (15t/ha) e Barcelona Ag-324 (14t/ha). O peso das cabeças variou de 560 a 715g.
Brócolis: Majestic Crown (12t/ha); AF-919 (11,8t/ha) e AF-567 (10,1t/ha). O peso das cabeças variou de 406 a 482g.
Em relação às doenças avaliadas (alternariose e podridão-negra), houve baixa incidência para os híbridos de repolho nas duas épocas de plantio.  A couve-flor Júlia F1 foi a mais resistente à alternariose nas duas épocas de plantio. Em relação aos híbridos de brócolis, não houve diferenças significativas quanto à incidência de alternariose nas duas épocas de plantio.

Figura 1. Cabeça de brócolis, híbrido Legacy, produzida no sistema orgânico na EEUr
Figura 2Cabeças de couve-flor e de brócolis produzidas no sistema orgânico na EEUr
Figura 3Híbridos de couve-flor Barcelona Ag-324, produzida no sistema orgânico na EEUr

Efeito da rotação de culturas em sistemas de cultivo orgânico e convencional
Pesquisa realizada na EEUr com o híbrido de repolho Fuyutoyo revelou que o sistema de rotação de culturas foi superior ao monocultivo em 10,6%. Por outro lado, no cultivo de couve-flor, utilizando-se o híbrido Barcelona Ag-324, não houve efeito da rotação de culturas nos sistemas orgânico e convencional, na média de três anos. As culturas da cenoura e alface, semeadas e transplantadas em agosto e janeiro respectivamente, foram utilizadas em sucessão a couve-flor e repolho.


Figura 4. Aspecto geral do experimento no outono sobre sistemas de rotação de culturas na EEUr
Quando se compararam os sistemas de produção no cultivo de couve-flor, observou-se que o sistema convencional (15,3t/ha) foi ligeiramente superior ao orgânico (13,3t/ha) na média de três anos, no plantio de verão/outono. Em relação ao custo de produção, praticamente não há diferenças entre os dois sistemas. No entanto, no que se refere à adubação, se o agricultor tiver aviário ou a atividade de pecuária, a adubação orgânica com esterco manterá a fertilidade do solo mais duradoura.

Conclusões
Considerando-se que a produtividade média de repolho, couve-flor e brócolis em Santa Catarina, no sistema convencional, é de 38, 19 e 15t/ha respectivamente, e que se alcançaram até 65, 24 e 20t/ha no orgânico respectivamente,  conclui-se  que:
1. O cultivo orgânico das brássicas é viável técnica e economicamente.
2. Embora na comparação dos sistemas de produção haja ligeira superioridade do cultivo convencional sobre o orgânico, quanto ao rendimento de cabeças de couve-flor o maior valor agregado dos produtos obtidos nesse último, associado ao menor custo com a adubação, caso o produtor tenha disponível na propriedade esterco de animais, compensa esta pequena perda na produtividade.


Cenoura
Entre as hortaliças, a cenoura é uma das que possuem menor limitação para produção tanto no sistema convencional como no orgânico. A existência de cultivares resistentes ao sapeco, normalmente, reduz os danos causado pela doença. Em relação às pragas, praticamente nenhuma causou danos econômicos.

Efeito da rotação de culturas em sistemas de cultivo orgânico e convencional
Resultados obtidos na EEUr com o cultivar Brasília, semeado no final de inverno, revelaram, na média de três anos (2004, 2005 e 2006), que não houve efeito da rotação de culturas nos sistemas orgânico e convencional. As culturas de alface e couve-flor, transplantadas em janeiro e fevereiro respectivamente, foram utilizadas em sucessão à cenoura.
Quando foram comparados os sistemas de produção, constatou-se que os rendimentos obtidos de raízes comerciais de cenoura foram semelhantes nos sistemas de cultivo convencional (45,4t/ha) e orgânico (42,9t/ha).

Conclusões
1. O cultivo orgânico de cenoura é viável técnica e economicamente.
2. Embora na comparação dos sistemas de produção não haja diferenças significativas quanto ao rendimento de raízes de cenoura, nos sistemas de cultivo convencional e orgânico o maior valor agregado do produto nesse último, associado ao menor custo com a adubação, caso o produtor tenha disponível na propriedade esterco de animais, proporciona maior retorno aos produtores.







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CUSTOS E RENTABILIDADES NA PRODUÇÃO DE HORTALIÇAS ORGÂNICAS E CONVENCIONAIS NO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO Parte II (Final)

Trabalho publicado na Revista Brasileira de Agropecuária Sustentável (RBAS), v.3, n.1, p.11-24, Julho 2013

Autores:
Jacimar Luis de Souza,  Pesquisador do INCAPER - Centro Serrano, BR 262, Km 94, CEP: 29375-000, Venda Nova do Imigrante - ES. Bolsista de produtividade do CNPq. E-mail: jacimarsouza@incaper.es.gov.br

Rogério Dela Costa Garcia,  Professor interventor da FUNPAC - Av. Lorenzo Zondonadi, S/N, Bairro Vila Betânea, CEP: 29375-000, Venda Nova do Imigrante - ES. E-mail: rogeriodellacosta@hotmail.com



RESUMO – O objetivo deste trabalho foi realizar uma avaliação comparativa dos indicadores físicos e financeiros dos dois sistemas de cultivo de dez espécies de hortaliças, analisando-se a participação relativa dos diversos componentes nos respectivos custos de produção. Utilizou-se uma base de dados de 20 anos, de 1990 a 2009, da Unidade de Referência em Agroecologia do INCAPER, localizada no município de Domingos Martins-ES.
O sistema orgânico de produção confirmou grande viabilidade econômica, com média de custo de produção por hectare 8% menor que a média das hortaliças convencionais. O gasto com mão-de-obra foi ligeiramente menor no sistema orgânico e confirmou ser o componente de maior participação nos custos de ambos sistemas de produção. Os sistemas orgânicos de abóbora, morango, repolho e tomate apresentaram custo de produção menor que os sistemas convencionais. Os sistemas convencionais de produção de alho, batata e quiabo apresentaram custo de produção menor que os sistemas orgânicos. As culturas de cenoura, pimentão e taro apresentam custos de produção semelhantes nos sistemas orgânicos e convencionais. Todas as culturas olerícolas no cultivo orgânico revelaram receitas líquidas superiores ao cultivo convencional, com razões variando de 1,1 para o morango até 28,4 para o repolho.

Palavras-chave: agricultura orgânica, agroecologia, eficiência econômica.

COSTS AND PROFITABILITIES IN THE ORGANIC AND CONVENTIONAL
PRODUCTION VEGETABLES IN ESPÍRITO SANTO STATE
ABSTRACT – The aim of this study was to perform a comparative evaluation of the physical and financial indicators of the two cropping systems of ten species of vegetables by analyzing the relative share of thevarious components of their costs of production. We used a database of 20 years, from 1990 to 2009, ofthe Reference Area in Agroecology in the INCAPER, located in the Domingos Martins City, Espírito Santo
State. The organic system confirmed large economic viability, with average production cost per hectare 8% lower than the average conventional vegetables. Spending on hand labor was slightly lower in the organic system and proved to be the component of greater participation in the costs of both production systems. The organic squash, strawberries, cabbage and tomato showed lower costs than conventional systems.
Conventional systems produce garlic, potatoes and okra showed lower costs than organic systems. Cropsof carrots, peppers and yam have similar costs in organic and conventional systems. All vegetable crops in organic farming showed higher net revenues to the conventional, with ratios ranging from 1.1 for strawberry until 28.4 for cabbage.

Keywords: agroecology, economic efficiency, organic agriculture.

1. INTRODUÇÃO
     A análise dos custos de produção permite a avaliação das condições econômicas do processo de produção, inferindo sobre vários aspectos como rentabilidade dos recursos empregados, condições de recuperação destes recursos e perspectivas de decisões futuras sobre o empreendimento como expansão, retração e extinção. A composição dos custos, ao ser analisada e comparada com padrões ou casos semelhantes, oferece subsídios à tomada de decisões sobre como melhorar as atividades produtivas para obter resultados mais satisfatórios (Reis & Guimarães, 1986).
     Para efeito de estimativa de custo de produção, considera-se o processo de produção dentro de certo prazo,  suficiente para que se obtenham os resultados em forma do produto final. É preciso estabelecer um ciclo que parta da entrada de recursos e finaliza-se com saída de produtos. A soma de todos esses recursos (insumos) e operações (serviços) utilizados no processo produtivo é contemplada para a análise do custo de produção (Ferguson, 1976; Lefwich, 1973; Reis, 1990; Matsunaga & Bemelmans, 1976).
     A receita da produção depende basicamente da produtividade do cultivo e do preço de mercado, sendo constituída pelo valor das vendas do produto final, dos produtos secundários e dos estocados e, em alguns casos, do auto-consumo da exploração agropecuária.
     A receita média da produção dada como a relação entre a receita da produção e a quantidade produzida (valor  / quantidade), quando comparada aos custos médios, constitui-se na análise econômica ou de rentabilidade da atividade, por unidade do produto (Garcia, 2005).
     Luz et al. (2007), compararam aspectos agronômicos e econômicos da produção orgânica e convencional do tomateiro, utilizando-se dados coletados de um sistema orgânico em Araraquara-SP e de um sistema convencional em Uberlândia-MG. Concluíram que o sistema orgânico apresentou-se agronomicamente viável, com produtividades ligeiramente inferiores, mas com um custo de produção 17,1% mais baixo que o convencional, de forma que a lucratividade foi até 113,6% maior.      Gonçalves et al. (2007), avaliando a cultura da batata orgânica em dois sub-sistemas de produção, em Pelotas-RS (Sistema 1: Manejo orgânico baseado no padrão do agricultor da rede de referência em agroecologia e Sistema 2: Manejo orgânico baseado em  tecnologias recomendadas pelo órgão de pesquisa), demonstrou que a mão-de-obra representou 24,1% e 18,6% do total de custos, respectivamente. De forma similar, Miguel et al. (2010), verificam um custo relativo de 30,6% com a mão-de-obra no cultivo orgânico da alface em Bebedouro-SP. Estes índices de participação são semelhantes aos relatados nos sistemas convencionais de hortaliças, indicando, portanto, que este componente pode não ser limitante na produção orgânica de algumas culturas.
     Em um estudo de caso comparativo entre o custo de produção de morango orgânico e convencional no estado de São Paulo, Donadelli et al. (2012) verificaram comportamento econômico semelhante entre os dois sistemas. O custo total do morango convencional foi 16% superior ao orgânico, com índices de lucratividade de 60,7% e 49,5%, respectivamente. A mão-de-obra se confirmou-se como o componente de maior participação nos custos em ambos sistemas, representando 49,6% no cultivo orgânico e 29,3% no convencional.
     Pelinski & Guerreiro (2004), numa análise mercadológica, evidenciaram maior viabilidade econômica para os produtos orgânicos, porém o preço pago no mercado pode alterar este comportamento. Verificaram que a soja e o fumo orgânicos continuaram a ter maior viabilidade econômica que no sistema convencional, ainda que fossem vendidos ao mesmo preço no mercado. Porém, a batata orgânica demonstra maior viabilidade econômica apenas se houver sobrevalorização de seus preços de venda.
     Os sistemas de cultivo convencional em uso no Espírito Santo e no Brasil caracterizam-se pela elevada importação de insumos sintéticos que provocam aumento expressivo nos custos de produção, além da dependência do agricultor dos diversos fatores do mercado. Como exemplo, estudo realizado no estado de São Paulo, por Faria & Oliveira (2005), revelaram que tanto os adubos/insumos quanto os pesticidas tiveram uma participação relativa maior que a mão-de-obra na safra das águas, representando 24% e 23%, contra 19%, respectivamente.
     De modo geral, existe o preconceito de que sistemas orgânicos são onerosos e de alta demanda de mão-de-obra. Diante disso, objetivou-se com este trabalho realizar uma avaliação comparativa pormenorizada dos indicadores físicos e financeiros dos sistemas orgânico e convencional de cultivo de hortaliças, analisando se a participação relativa dos diversos componentes nos respectivos custos de produção.

2. MATERIAL E MÉTODOS
     Este trabalho foi executado no período de 1990 a 2009, na área experimental de agricultura orgânica do INCAPER, hoje, denominada Unidade de Referência em Agroecologia, localizada no município de Domingos Martins-ES, a uma altitude de 950 m, ocupando uma área de 2,5 ha, dividida em 15 talhões de solo para possibilitar a prática da rotação cultural.
     O manejo orgânico dos solos tem sido realizado por intermédio da reciclagem de biomassa e restos culturais, compostagem orgânica, práticas como cobertura morta, adubação verde, rotação de culturas, aplicações de biofertilizantes via solo e foliar, entre outras. Neste período de 20 anos foram definidos todos os coeficientes técnicos no manejo orgânico de produção de hortaliças, utilizados neste estudo comparativo ao sistema convencional.
     Para o sistema convencional, caracterizado neste trabalho como o sistema regional predominante entre os agricultores, adotaram-se os coeficientes técnicos médios dos sistemas de produção de cada cultura, conforme indicações de órgãos ligados à Secretaria de Agricultura do Espírito Santo.
     O custo de produção foi calculado por meio de planilhas de coeficientes técnicos e exigência física de fatores de produção obedecendo à seguinte estrutura:
a) operações agrícolas: para cada operação levantou-se o número de horas de  trabalho gastos por categoria de mão-de-obra, trator, e/ou equipamentos envolvidos na operação.
b) materiais de consumo: materiais utilizados no processo de produção, próprios ou adquiridos pelo produtor (sementes, agroquímicos, adubos e outros).
     Os indicadores físicos e financeiros contemplaram toda a cadeia produtiva, envolvendo os custos relativos ao campo de produção, além dos custos com transporte, embalagem e frete para a entrega do produto no mercado.
     Os preços utilizados neste estudo foram baseados em reais (R$), relativos aos preços médios do mês de outubro de 2010, realizando-se as avaliações econômicas por meio de planilhas informatizadas próprias, com auxílio do programa Excel 2007.
     Para os componentes não disponíveis comercialmente como composto orgânico e biofertilizante enriquecido preparados localmente, foram realizados cálculos específicos de custos de acordo com o processo adotado, que conferiu um custo unitário de R$ 58,69 por tonelada de composto e de R$ 0,06 por litro de biofertilizante.
     Para a composição dos custos dos sistemas orgânicos, consideraram-se as produtividades médias acumuladas em vinte anos de manejo orgânico na unidade de Referência em Agroecologia do INCAPER, considerando os padrões de embalagens mais usuais em bandejas de isopor. Para avaliação comparativa, a totalização de custos nos sistemas convencionais considerou os rendimentos médios destes cultivos  na região produtora, que empregam a tecnologia recomendada, contabilizando-se padrões de embalagens em caixas tipo ‘K’ e sacos telados, conforme detalhado na a prática mais usual dos agricultores da região, na utilização do formulado 18-00-36 e do superfosfato simples, variando-se apenas a quantidade dependendo das exigências e cada cultura.
     Para as sementes disponíveis no mercado, utilizou-se o preço corrente em lojas da região. Para as espécies de propagação vegetativa, em que a ‘semente’ é a reserva de parte da produção comercializável, como alho, batata e taro, aplicou-se a metodologia de custo de oportunidade, sendo os propágulos valorados com o preço de mercado do produto orgânico.
     O Kit túnel baixo para cobertura de 500 m2 de canteiros de morango, composto por  lona leitosa, arco PVC e fitilho, teve um custo total de R$ 1.695,00 cada. Portanto, para uma vida útil de três anos, o custo anual considerado foi de R$ 565,00.  
     Para a contabilização do frete, utilizou-se do preço médio praticado no mercado para transporte de embalagens padrões, como sacos de 30 a 50 kg (R$ 1,50); caixas de madeira tipo ‘K’ (R$ 1,50); sacos de 20 kg (R$ 1,00) e sacos de 10 kg (R$ 0,50). Por equivalência volumétrica, valorou-se o frete das embalagens de morango a R$ 0,38 por caixa de 1,2 kg de morango (convencional e orgânico) e a R$ 0,10 as demais embalagens orgânicas, como bandejas de isopor e produtos individuais em filme plástico para a abóbora e o repolho.
     Os coeficientes técnicos detalhados para cada cultura, utilizados para a globalização dos custos e estimativas de receitas dos dois sistemas de produção, estão apresentados individualmente para cada uma das dez espécies analisadas.


3. RESULTADOS     (Continuação)


Quiabo (Abelmoschus esculentus L.):
Os custos totais foram semelhantes entre os cultivos orgânicos e convencionais, identificando-se apenas diferenças nas participações percentuais dos componentes nos custos totais de cada sistema (Tabela 8). As embalagens e o frete tiveram participação mais expressiva no sistema orgânico. A mão-de-obra e os adubos/corretivos elevaram os custos do sistema convencional. Os maiores gastos de mão-de-obra no convencional foram devidos ao adicional de 30 D/H para pulverizações e 15 D/H a mais nas operações de colheitas.
   


Tabela 8 - Indicadores financeiros e consumo de mão-de-obra na cultura do quiabo (1 ha) em dois sistemas de produção. INCAPER, Domingos Martins-ES, 2010.1

Despesas
Orgânico
Convencional
Valor (R$)
%
Valor (R$)
%
Sementes/mudas
224,00
1,12
224,00
1,24
Adubo orgânico (composto)
1.760,70
8,78
-
-
Adubos e corretivos
-
-
2.928,00
16,26
Caldas e produtos biológicos
110,00
0,55
-
-
Pesticidas
-
-
611,60
3,40
Outros Insumos e materiais
-
-
-
-
Serviços Mecânicos
360,00
1,79
360,00
2,00
Mão de Obra (D/H)
(274) 8.220,00
40,98
(320) 9.600,00
53,31
Embalagens
4.958,24
24,72
4.958,24
14,87
Frete
4.427,30
22,07
1.606,50
8,92
Total
20.060,24
100,00
1.606,50
8,92
1 Valores em R$ (atualizado em outubro de 2010).



     Com uma receita bruta de R$ 19.923,00 em função, principalmente, do sobrepreço pago pelo mercado orgânico, em contrapartida a um custo de R$20.060,24, mesmo tendo pequeno saldo negativo, este sistema mostrou-se mais competitivo e rentável que o sistema convencional, cuja receita bruta foi de R$ 13.950,00 e o custo de R$18.007,60, com saldo negativo bem maior (Tabelas 14 e 15).


Repolho (Brassica oleracea var. capitata):
     O custo de produção da cultura do repolho no sistema orgânico apresentou-se 21% menor que no sistema convencional, totalizando R$11.099,67 contra R$14.096,00 por ha, respectivamente. Os gastos com adubos/corretivos e pesticidas foram as causas dos maiores custos no cultivo convencional (Tabela 9).
     A ausência de problemas fitossanitários no sistema de cultivo orgânico dispensa pulverizações com caldas, limitando-se apenas ao uso do composto como insumo necessário à produção (R$1.760,70) ao passo que, no sistema convencional, o total de gastos com insumos atinge R$4.246,00 (esterco, adubos químicos e pesticidas).
     As participações percentuais dos componentes nos custos totais revelaram a mão-de-obra e o frete como os maiores gastos no sistema orgânico e a mão- de-obra e os adubos/corretivos com maiores gastos no sistema convencional.


  
Tabela 9 - Indicadores financeiros e consumo de mão-de-obra na cultura do repolho (1 ha) em dois sistemas de produção. INCAPER, Domingos Martins-ES, 2010.1

Despesas
Orgânico
Convencional
Valor (R$)
%
Valor (R$)
%
Sementes/mudas
246,00
2,22
246,00
1,75
Adubo orgânico (composto)
1.760,70
15,86
-
-
Adubos e corretivos
-
-
3.342,40
23,71
Caldas e produtos biológicos
-
-
-
-
Pesticidas
-
-
903,60
6,41
Outros Insumos e materiais
-
-
-
-
Serviços Mecânicos
360,00
3,24
360,00
2,55
Mão de Obra (D/H)
(171) 5.040,00
45,41
(164) 4.920,00
34,90
Embalagens
865,37
7,80
1.504,00
10,67
Frete
2.827,60
25,47
2.820,00
20,01
Total
11.099,67
100,00
14.096,00
100,00
1 Valores em R$ (atualizado em outubro de 2010).


     Considerando as produtividades do repolho (56.553 kg/ha e 47.102 kg/ha para o sistema orgânico e  convencional, respectivamente, a receita bruta do sistema orgânico foi de R$25.448,85, 74% maior que o cultivo convencional, que totalizou uma receita bruta de R$14.601,62. Este fato está relacionado à baixa remuneração do produto no mercado convencional, ao sobre preço pago pelo mercado orgânico e às diferenças no rendimento comercial (Tabela 14).

Taro (Colocasia esculenta L. Schot):
     Os indicadores físicos e financeiros da cultura do taro estão contidos na Tabela 10. Observa-se custos totais muito similares estre os dois sistemas, inclusive com demanda de mão-de-obra muito semelhante, totalizando 157 D/H no sistema orgânico e 149 D/H no sistema convencional.
     Os componentes com maior participação relativa nos custos totais dos dois sistemas foram a mão-de-obra e as embalagens, que representaram 36% e 22% no cultivo orgânico e 33% e 22% no convencional, respectivamente.
      
   


 Tabela 10 - Indicadores financeiros e consumo de mão-de-obra na cultura do taro (1 ha) em dois sistemas de produção. INCAPER,Domingos Martins-ES, 2010.1

Despesas
Orgânico
Convencional
Valor (R$)
%
Valor (R$)
%
Sementes/mudas
1.940,00
14,13
1.460,00
11,17
Adubo orgânico (composto)
1.173,80
8,55
-
-
Adubos e corretivos
-
-
2.384,40
18,24
Caldas e produtos biológicos
-
-
-
-
Pesticidas
-
-
63,60
0,49
Outros Insumos e materiais
-
-
-
-
Serviços Mecânicos
360,00
2,62
360,00
2,75
Mão de Obra (D/H)
(157) 4.920,00
35,83
(149) 4.260,00
32,59
Embalagens
3.080,80
22,44
2.840,00
21,73
Frete
2.256,90
16,44
1.704,00
13,04
Total
13.731,50
100,00
13.072,00
100,00
1 Valores em R$ (atualizado em outubro de 2010).

     Com rendimento de 22.569 kg ha-1 para venda, o sistema orgânico obteve receita bruta de R$ 21.831,93, enquanto que o sistema convencional com produtividade de 23.000 kg ha-1 para venda, alcançou receita bruta de R$ 16.790,00 (Tabela 14), mostrando que o sistema orgânico, apesar de ser um pouco menos produtivo em relação ao cultivo convencional, gerou receita bruta 30% maior em função do sobrepreço pago no mercado de produtos orgânicos.


Tomate (Lycopersicon esculentum Mill):
     O uso intensivo de adubos/corretivos e pesticidas na cultura do tomate convencional representa um gasto de R$8.902,40 ha-1, sendo este um dos diferenciais de custo de produção deste sistema em relação ao cultivo orgânico, que contempla um gasto total de R$4.412,30 com composto, caldas/produtos biológicos e biofertilizante líquido (Tabela 11). Os maiores gastos de mão-de-obra no cultivo convencional (557 D/H) em relação ao cultivo orgânico (458 D/H) se deve ao gasto de 46 D/H a mais para pulverizações e de 70 D/H a mais para as colheitas, classificação e embalagem do maior volume de produção.
    


Tabela 11 - Indicadores financeiros e consumo de mão-de-obra na cultura do tomate (1 ha) em dois sistemas de produção. INCAPER, Domingos Martins-ES, 2010.1      

Despesas
Orgânico
Convencional
Valor (R$)
%
Valor (R$)
%
Sementes/mudas
103.20
0,30
5360.00
12,26
Adubo orgânico (composto)
1760.70
5,06
-
-
Adubos e corretivos
-
-
5116.80
11,70
Caldas e produtos biológicos
731.60
2,10
-
-
Pesticidas
-
-
3785.60
8,66
Outros Insumos e materiais
1920.00
5,52
-
-
Serviços Mecânicos
360.00
1,03
360.00
0,82
Mão de Obra (D/H)
(458) 13590.00
39,05
(557) 16710.00
38,21
Embalagens
8628.48
24,80
7750.00
17,72
Frete
7703.60
22,14
4650.00
10,63
Total
34797.58
100,00
43732.40
100,00
1 Valores em R$ (atualizado em outubro de 2010).


Tabela 12 - Média de custos e da participação relativa dos diversos fatores para a produção de 1 ha de hortaliças, em dois sistemas de cultivo. INCAPER, Domingos Martins-ES, 20101.

Despesas
Orgânico
Convencional
Valor (R$)
%
Valor (R$)
%
Sementes/mudas
2.349,47
9,89
2.359,95
8,23
Adubo orgânico (composto)
1.613,98
9,84
0,00
0,00
Adubos e corretivos
0,00
0,00
2.942,81
16,31
Caldas e produtos biológicos
234,43
0,80
0,00
0,00
Pesticidas
0,00
0,00
1.614,08
6,39
Outros Insumos e materiais
1.449,50
2,92
897,50
1,06
Serviços Mecânicos
360,00
2,60
360,00
2,33
Mão de Obra (D/H)
(283) 8.484,00
38,48
(316) 9.459,00
40,22
Embalagens
5.649,67
18,55
5.660,44
14,96
Frete
4.071,56
16,92
3.046,20
10,49
Total
24.212,61
100,00
26.339.98
100,00
1 Valores em R$ ( atualizados em outubro de 2010). Total de 10 espécies por sistema.


     As participações percentuais dos componentes nos custos totais do sistema orgânico e convencional são bastante distintas. No cultivo orgânico há uma maior participação relativa da mão-de-obra, embalagens e frete que somam 86% do custo. No sistema convencional há uma distribuição mais regular da participação dos componentes. Em função do alto consumo de insumos químicos, a produtividade no sistema convencional é bastante superior ao sistema orgânico. Porém, mesmo com rendimento de frutos 44% menor, quando se considera que o custo de produção foi 20% mais baixo e o preço de venda 108% mais alto, a receita bruta no sistema orgânico foi 18% maior (Tabelas 13 e 14). Estes dados se assemelham aos obtidos por Luz et al. (2007), em que o sistema orgânico de tomate apresentou custo de produção 17,1% mais baixo que o convencional e lucratividade até 113,6% maior, muito próximo ao valor obtido neste trabalho que foi de 94%.


4. DISCUSSÃO
     Na média geral das 10 espécies analisadas, a Tabela 12 indica pequena diferença no custo de produção entre o sistema orgânico e o convencional, revelando um custo 8,1% menor em favor do sistema orgânico. Verifica-se também que a participação relativa da mão-de-obra foi um pouco menor no sistema orgânico com gasto médio de 283 D/H e despesa equivalente a R$8.484,00, representando 38,5% de todo o custo de produção. No sistema convencional utilizou-se 316 D/H com despesa equivalente a R$9.459,00, representando 40,2% do custo de produção. A mão-de-obra confirmou-se no principal componente do custo de produção para os dois sistemas.
     No sistema orgânico, os itens de maior participação nos custos de produção das culturas trabalhadas, em ordem decrescente, foram: mão-de-obra, embalagens e frete que juntos totalizaram 74,0%. No sistema convencional foram: mão-de-obra, adubos/corretivos e embalagens totalizando 71,5%.
     A participação média da mão-de-obra nos custos das 10 olerícolas verificadas neste trabalho (38,5% e 40,2%, no sistema orgânico e convencional, respectivamente) diferem dos resultados de Faria & Oliveira (2005), que relataram uma participação relativa bem menor, na faixa de 19%, nas duas épocas avaliadas, ficando abaixo dos custos com adubos e pesticidas, tanto na safra de tomate das águas quanto na época da seca. A explicação desta diferença reside no fato deste estudo analisar o sistema convencional dentro dos limites de uso racional de insumos na média regional, enquanto que Faria & Oliveira (2005), analisaram a realidade de um agricultor que adota o controle de pragas e doenças com pesticidas, duas vezes por semana.
     Verificou-se ainda que os custos com a utilização de composto e outros insumos no sistema orgânico somaram 12,8% que se aproximaram aos custos com adubos e corretivos empregados no sistema convencional equivalentes a 16,3%. Outra constatação importante foi que os custos com proteção de plantas em ambos sistemas foram bastante diferentes, gastando-se em média 0,8% com caldas e produtos biológicos no sistema orgânico, enquanto que no sistema convencional gastou-se 6,4%.
     A abordagem geral de custos unitários e totais está apresentada na Tabela 13. Verificou-se não haver uma  relação direta entre custo total por hectare e o custo do kg do produto. No sistema orgânico, as culturas com menores custos totais por hectare que os convencionais foram a abóbora, o morango, o repolho e o tomate. Porém, as que apresentaram menores custos unitários do kg do produto foram somente a abóbora e o repolho.
     Para o morango, apesar do menor custo de produção no sistema orgânico, o kg desse produto foi um pouco superior ao convencional. Para o tomate esta relação invertida foi ainda mais marcante uma vez que, no cultivo orgânico, com um custo de produção 20% menor, o kg de tomate foi 41% maior, devido à grande diferença no rendimento comercial.
     No sistema convencional, a produção de alho, batata e quiabo obteve preços menores que nos respectivos  sistemas orgânicos. A cenoura, o pimentão e o taro apresentaram custos semelhantes em ambos sistemas produtivos.
     Verificou-se um custo médio do hectare em sistema orgânico 8,1% menor que no sistema convencional, porém o kg do produto foi praticamente o mesmo, diferenciando-se em apenas 2,6% (Tabela 13).
     Os preços pagos nos respectivos mercados de hortaliças orgânicas e convencionais apresentam diferenças marcantes, dependendo da cultura. Na Tabela 14, observamos que os preços de mercado pago pelas hortaliças orgânicas foram bem superiores às convencionais, exceto para a cenoura, em que a diferença foi inexpressiva. Na média geral, o sobrepreço dos produtos orgânicos foi de 57,8%, refletindo numa receita bruta 19,0% maior que no sistema convencional. Estes resultados corroboram com os obtidos por Pelinski & Guerreiro (2004), em que evidenciaram maior viabilidade econômica para os produtos orgânicos, mas relataram que o preço pago no mercado pode alterar este comportamento.

Tabela 13 - Custos unitários e custos totais para 1 ha de diversas hortaliças em sistema orgânico e convencional. INCAPER, Domingos Martins-ES, 20101.


Culturas
Sistemas
Orgânico (A)
Convencional (B)
Diferencial
Por ha (A/B)
(%)
(R$/ha)
(R$/kg)
(R$/ha)
(R$/kg)
Abóbora
3.595,85
0,49
4.917,50
0,58
-26,9
Alho
22.024,68
3,31
17.874,55
2,81
+23,2
Batata
15.861,70
0,92
14.011,20
0,80
+13,2
Cenoura
20.480,18
0,87
20.001,72
0,71
+2,4
Morango
67.819,20
2,58
84.690,80
2,35
-19,9
Pimentão
32.655,46
1,47
32.996,00
1,10
-1,0
Quiabo
20.060,24
1,51
18.007,60
1,20
+11,4
Repolho
11.099,67
0,20
14.096,00
0,30
-21,3
Taro
13.731,50
0,56
13.072,00
0,52
+5,0
Tomate
34.797,58
0,90
43.732,40
0,64
-20,4
Média geral
24.212,61
1,28
26.339,98
1,10
-8,1
1 Valores em R$ (Atualizados em outubro de 2010).


Tabela 14 - Preço unitário de venda e receita bruta obtida em 1 ha de diversas hortaliças em sistema orgânico e convencional. INCAPER, Domingos Martins-ES, 20101.

Culturas
Sistemas
Orgânico (A)
Convencional (B)
Diferencial
Por ha (A/B)
(%)
(R$/ha)
(R$/kg)
(R$/ha)
(R$/kg)
Abóbora
0,77
5.638,71
0,55
4.675,00
+20.6
Alho
7,50
43.845,00
4,27
23.698,50
+85.0
Batata
2,16
33.266,16
1,00
15.611,00
+113.1
Cenoura
0,79
18.602,13
0,75
21.000,00
-11.4
Morango
6,70
175.881,70
5,00
180.000,00
-2.3
Pimentão
1,70
37.755,30
1,01
30.300,00
+24.6
Quiabo
1,50
19.923,00
0,93
13.950,00
+42,8
Repolho
0,45
25.448,85
0,31
14.601,62
+74,3
Taro
0,97
21.831,93
0,73
16.790,00
+30,0
Tomate
1,75
67.406,50
0,84
57.288,00
+17,7
Média geral
2,43
44.959,93
1,54
37.791,41
+19,0
1 Valores em R$ (Atualizados em outubro de 2010).


     Numa abordagem individualizada por cultura, verificou-se que as receitas mais elevadas dos sistemas orgânicos variaram de 17,7% até 113,1% maior que dos convencionais. Apenas para a cenoura e o morango as receitas dos sistemas orgânicos foram menores aos dos convencionais, na média de -11,4% e -2,3%, respectivamente.
     O sistema orgânico de produção apresentou receitas líquidas positivas em quase todas as culturas, exceto para o quiabo que revelou receita negativa de R$ 137,24 no cultivo orgânico. Nos sistemas convencionais foram verificadas receitas líquidas negativas para a abóbora, o pimentão e o quiabo de R$ 242,50, R$ 2.696,00 e R$ 4.057,60, respectivamente (Tabela 15).
     No cultivo orgânico, a única cultura que revelou receita líquida inferior ao convencional foi a cenoura, em média 30%. As demais culturas cultivadas organicamente obtiveram receitas líquidas superiores em relação ao cultivo convencional, com razões variando de 1,1 para o morango até 28,4 para o repolho.
     A média geral de receita líquida obtida no sistema orgânico de produção foi de R$ 21.006,34, sendo 80% superior ao sistema convencional que foi de 11.450,44. Porém, devido à cultura do morango ser diferenciada em relação às demais hortaliças por apresentar alta rentabilidade nestes sistemas produtivos, as médias de receitas líquidas para as hortaliças reduzem para R$ 11.333,43 e R$ 2.132,79 por hectare, respectivamente, se não contabilizarmos o morango (Tabela 15).

Tabela 15 - Receitas líquidas comparativas para 1 ha de diversas culturas em sistema orgânico e convencional. INCAPER, Domingos Martins-ES, 20101.

Culturas
Sistemas
Orgânico
(A)
(R$)
Convencional
(B)
(R$)
Razão
(A/B)
(5)
Abóbora
2.042,86
- 242,50
-
Alho
21.820,32
5.823,95
3,7
Batata
17.404,46
1.599,80
10,9
Cenoura
712,12
988,28
0,7
Morango
108.062,50
95.309,20
1,1
Pimentão
5.099,84
- 2.696,00
-
Quiabo
-137,24
- 4.057,60
-
Repolho
14.349,18
505,62
28,4
Taro
8.100,43
3.718,00
2,2
Tomate
32.608,92
13.555,60
2,4
Média geral
21.006,34
11.450,44
1,8
1 Valores em R$ (Atualizados em outubro de 2010).



5. CONCLUSÕES

     O sistema orgânico de produção confirmou grande viabilidade econômica, sendo mais expressiva quando se obteve maiores preços no respectivo mercado.

     A média de custo de produção por hectare de hortaliças orgânicas foi 8% menor que a das hortaliças convencionais.

     O gasto com mão-de-obra foi ligeiramente menor no sistema orgânico e confirmou ser o componente de maior participação nos custos destes sistemas de produção, em torno de 38,5% no sistema orgânico e 40,2% no convencional.

     Os custos com a utilização de composto orgânico e outros insumos no cultivo orgânico equivalem-se aos com adubos e corretivos empregados no sistema convencional.

     Os sistemas orgânicos de abóbora, morango, repolho e tomate apresentaram custo de produção menor que nos sistemas convencionais.

     O alho, batata e quiabo quando cultivados, convencionalmente, obtiveram custo de produção menor que nos sistemas orgânicos.

     Os custos de produção da cenoura, pimentão e taro foram semelhantes nos dois sistemas analisados.

     A maioria das olerícolas cultivadas em sistema orgânico revelou receita líquida superior ao convencional,  variando de 1,1 para o morango até 28,4 vezes para o repolho. Para a cenoura orgânica a receita líquida foi inferior ao cultivo convencional (30% a menos) e para o quiabo esta foi negativa em ambos sistemas de produção.


6. LITERATURA CITADA

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GARCIA, R.D.C. Custos de produção de olerícolas em sistema orgânico. In: SOUZA J.L. Agricultura orgânica: tecnologias para a produção de alimentos saudáveis. Vitória, ES: INCAPER, v.2, 2005. 257p.

GONÇALVES, M.M.; MEDEIROS, C.A.B.; REICHERT, L.J. Comparação dos parâmetros técnicos e econômicos de sistemas orgânicos de produção de batata. Porto Alegre, Revista Brasileira de Agroecologia, .2, n.1, p.1393-1396, 2007.

LEFWICH, R.H. O sistema de preços e alocação de recursos. 2.ed. São Paulo: Pioneira, 1973. 399p. LUZ, J.M.Q.; SHINZATO, A.V.; SILVA, M.A.D. Comparação dos sistemas de produção de tomate convencional e orgânico em cultivo protegido. Bioscience Journal, Uberlândia, v.23, n.2, p.7-15, 2007.

MATSUNAGA, M.; BEMELMANS, P.F.Metodologia de custo de produção utilizada peloIEA. Agricultura em São Paulo, v.23, n.1, p.123-139, 1976. MIGUEL, F.B.; GRIZOTTO, R.K.; FURLANETO, F.P.B. Custo de produção de alface em sistema de cultivo orgânico. Pesquisa & Tecnologia, São Paulo, v.7, n.2, p.6, 2010.

PELINSKI, A.; GUERREIRO, E. Os benefícios da agricultura orgânica em relação à convencional: ênfase em produtos selecionados. Publicação UEPG Ciências Humanas, Ciências Sociais Aplicadas, Linguas, Letras e Artes, Ponta Grossa, v.12, n.2, p.49-72, 2004.

REIS, A.J.; GUIMARÃES, J.M.P. Custo de produção na agricultura. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v.12, n.143, p.15-22, 1986.


REIS, A.J. Teoria econômica. Lavras: UFLA, Notas de aula. 1990. 262p.
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