terça-feira, 10 de maio de 2016

Autor: Antônio Henrique dos Santos



Publicação: O trabalho compõe a parte II – Orientações específicas para o cultivo de hortaliças - do Boletim Didático nº 107 “Produção de hortaliças em Santa Catarina”, publicado pela Epagri. Interessados em adquirir a publicação completa e ilustrada com 156 páginas, devem entrar em contato através do site: www.epagri.sc.gov.br




Taiá e mangarito
Essas plantas pertencem à família Araceae. e ao gênero Xanthosoma. Acredita-se que o cultivo de Xanthosoma seja muito antigo no novo mundo (Onwueme, 1978), e provavelmente este gênero originou-se na parte norte da América do Sul (Purseglove, 1972). Já eram cultivados pelos índios guaranis e outras tribos, desde antes do descobrimento.

Os principais representantes cultivados como alimento são o taiá e o mangarito. Em Santa Catarina são cultivados principalmente no Litoral Norte catarinense (Vale do Itajaí, Joinville), por agricultores de origem alemã, que procuraram substitutos para a batatinha.



Inhame do seco ou taiá-japão e Inhame de porco
Também fazendo parte da família Araceae, o gênero Colocasia é formado por dois grandes grupos principais: o grupo eddoes, que possui um túbera principal pequeno (soca) e os túberas secundários (dedos) grandes e pelo grupo dasheen, que possui uma soca grande e pequenos dedos. O taiá-japão pertence ao grupo eddoes e o inhame de porco ou da água, pertence ao grupo dasheen. São plantas originárias do sul da Ásia Central, provavelmente da Índia ou Malásia. Outra característica que distingue os dois gêneros é o formato das folhas, sendo que as Xanthosomas possuem uma fenda que vai até o pecíolo enquanto nas Colocasias a fenda é parcial. Foi introduzida no Brasil por escravos africanos (Figura 33).




FIGURA 33. Folhas de Xanthosoma (esquerda) e Colocasia (direita).



Manejo Tradicional de Mangarito e Taiá e Classificação Popular e Botânica:
Como essas espécies são nativas e não respondem à agricultura denominada “modernizada”, com utilização de insumos como calcário, adubos sintéticos, descrever-se-á o manejo que os produtores tradicionais do Vale do Itajaí e Joinville executam com essas plantas.



Taiá (Xanthosoma sagittifolium Schott)
Os produtores classificam popularmente em cinco variedades, que são: taiá vermelho, taiá branco, taiá cachorro e taiá louco. Botanicamente todas são Xanthosoma sagittifolium. O taiá vermelho e o branco são os preferidos para o consumo e a preferência varia conforme a região. Por exemplo, em Joinville, o preferido do mercado é o branco, enquanto que em Itajaí, o vermelho. Do taiá, podem ser consumidas as folhas, sendo o preferido para esta finalidade, o taiá branco. O taiá cachorro e louco são impróprios para o consumo, com relatos de intoxicação de suínos que consumiram o taiá louco.



Épocas de plantio
Os meses de agosto, setembro e outubro são os melhores meses, sendo colhido em média nove meses após o plantio, nos meses de maio, junho e julho.



Solos

Os solos preferenciais para seu cultivo são áreas novas, de coivara, de encosta, com menor teor de umidade.



Consórcios

O taiá pode ser cultivado à sombra. É comum seu consórcio com bananeiras, cafezais, cará tutorado e outras plantas altas.



Espaçamento
Quando em monocultivo, o espaçamento utilizado é de 1,00 X 0,80 m.



Adubação e correção do solo

Não há recomendação para adubação na ROLAS.

Em experimento de avaliação de nutrição em inhame realizado pela Emepa, chegou-se à seguinte conclusão:

A cultura do inhame respondeu positivamente às adubações de nitrogênio e fósforo, mas não apresentou resposta significativa à adubação com potássio e micronutrientes;

2 - A dose de nitrogênio de 62 kg/ha fracionada em duas parcelas iguais e aplicadas, em cobertura, aos 60 e 90 dias após o plantio, proporciona elevada produtividade, sendo indicada para fertilização nitrogenada da cultura do inhame;

3 - O emprego de 120 kg/ha de P O aplicado totalmente no plantio é indicado para fertilização da cultura do inhame, em solo de textura arenosa a média e de baixa fertilidade.
Assim, pode-se recomendar para as culturas Taiá, mangarito, inhame e cará a seguinte recomendação de adubação: 62 kg/ha de N, 80 kg/ha de P2O5 e 80 kg/ha de K2O.

Produtores entrevistados relatam que em locais onde foi aplicado o calcário, não conseguiram mais colher o taiá, que passou a ser atacado por podridões de solo.



Preparo para o comércio
Para esta finalidade, retiram-se as raízes e lavam-se os túberas em água corrente.


Mangaritos
No Vale do Itajaí e Joinville são cultivados dois tipos de mangaritos: o mangarito branco, classificado como Xanthosoma riedelianum Schott e o mangarito roxo, erroneamente classificado como Caladium Poecile Schott, sendo que o envio de plantas para classificação em recente estudo do autor, irá resultar em nova classificação que será Xanthosoma poecile Schott.



Mangarito Branco (Xanthosoma riedelianum Schott)
Este mangarito é cultivado principalmente em Joinville, sendo encontrado também no Vale do Itajaí, em algumas propriedades.

Épocas de Plantio
As épocas de plantio variam de agosto a outubro e a colheita de maio a julho.


Solos

Os solos cultivados em Joinville são os mesmos utilizados para hortaliças introduzidas, porém, a utilização de calcário tem causado podridões. Em Itajaí, em solos turfosos sem correção alguma com calcário, as plantas desenvolvem-se muito bem.

Consórcios

Na maioria das propriedades onde este mangarito é cultivado, é feito o monocultivo, porém como é uma planta adaptada a sombreamento, possui potencial para ser cultivada em consórcio.

Espaçamento

Os espaçamentos utilizados podem ser: 0,30 m entre plantas e 0,75 m entre linhas e também 0,40m entre plantas e 0,60m entre linhas.

Correção do solo

Calcário não é recomendado para esta cultura.

Preparo para o comércio

As touceiras são colhidas, debulhadas na roça e é feita uma pré-limpeza, com a remoção de raízes e barro aderido. Os túberas são colocados em sacos de ráfia e batidos contra uma tábua para soltar a casca, sendo após lavados em um riacho (Figura 34). Em seguida, são colocados em caixas plásticas ou de madeira e lavados com bombas elétricas ou tratorizadas, com 300 libras de pressão (Figura 35). Este processo remove a casca e o barro e o produto deve em seguida ser refrigerado (Figura 36).


FIGURA 34. Mangarito branco em saco de ráfia sendo sacudido e lavado em riacho.




FIGURA 35 . Mangarito branco lavado sob pressão.




FIGURA 36. Túberas de mangarito branco descascadas por meio de jato de água.



Mangarito roxo (Xanthosoma poecile Schott):

O mangarito roxo é encontrado na região de Blumenau, predominantemente. Em municípios como Ilhota, Luis Alves, Guabiruba, este mangarito predomina.

Épocas de Plantio

Os meses mais indicados para o plantio são agosto e setembro, e a colheita é realizada de maio a junho.

Solos

Os melhores solos para seu plantio são os solos ricos em matéria orgânica, de coivara (Figura 37), que não devem ser expostos ao sol durante o período da tarde. Estas áreas geralmente são de encostas.



FIGURA 37. Mangarito roxo plantado em coivara.

Consórcios

O cultivo pode ser em monocultivo ou consorciado com milho ou aipim.


Espaçamento

O espaçamento utilizado em monocultivo, é de 1 X 1m, e em cultivo consorciado utiliza-se o mesmo espaçamento, porém a cada 4 linhas de mangarito roxo, é inserida uma linha de milho ou aipim.

Correção do solo

A aplicação de calcário não é realizada.


Preparo para o comércio
O preparo para o comércio é realizado, inicialmente na roça, logo após a colheita, quando são separados os túberas secundários. Em seguida é feita uma pré-limpeza de raízes e a remoção do barro, e por fim são separadas as mudas. Na propriedade, as raízes são lavadas em água corrente sem pressão, para a limpeza de pêlos radiculares e barro (Figura 38).


FIGURA 38. Lavação de mangarito roxo com água sem pressão.



Taiá-japão (Colocasia esculenta Schott “Eddoes”)

O taiá-japão é encontrado na região de Joinville e no Vale do Itajaí existindo duas variedades locais de taiá-japão: uma de pecíolo verde-claro (conhecido como “branco”) e outra de pecíolo arroxeado (Figura 58). A variedade de pecíolo arroxeado produz túberas arroxeados e a de pecíolo verde, túberas brancos.

Épocas de Plantio
As épocas de plantio são: julho, agosto, e setembro, preferencialmente agosto. O taiá-japão apresenta um ciclo de vida mais curto que as outras raízes tuberosas, de aproximadamente 6 meses. A colheita estende-se de janeiro a março.

Solos

Os melhores solos para seu cultivo são os argilosos, não-encharcados, em áreas que recebam sombra.

Consórcios

Como é resistente ao sombreamento, pode ser encontrado em quintais agroflorestais, disperso com outras plantas como, por exemplo: batata-doce, tagetes (cravo de defunto), plantas medicinais, árvores frutíferas e ornamentais e também em monocultivo. Em Pirabeiraba é cultivado consorciado com cará.

Espaçamento

O espaçamento no plantio pode variar sendo plantado em monocultivo, com espaçamentos de 1,5 X 0,70m ou de 1 X 0,50m.


Correção do solo

A correção do solo com calcário não é realizada diretamente para esta planta e sim para as plantas que antecederam esta cultura.

Preparo para o comércio

O preparo dos túberas secundários para o comércio é feito através da lavação, remoção das raízes e dos pêlos radiculares. A manipulação destas plantas causa irritação na pele (coceiras), provocada pelo oxalato de cálcio e outros compostos presentes na planta. Para eliminar o oxalato de cálcio, os produtores colhem as plantas e deixam-nas secar por dois dias para após recolherem os túberas.



Cará (Dioscorea sp)

O gênero Dioscorea estava distribuído em eras geológicas primevas nos hemisférios ocidental e oriental, onde se desenvolveu independentemente em cada região (Purseglove, 1972). Pertence à família Dioscoreaceae.


Carás plantados em Santa Catarina
Existem três tipos de carás mais comumente encontrados em Santa Catarina, conforme figuras 40, 41 e 42.



FIGURA 40. Túberas e folha de cará-mimoso (Dioscorea trifida L.). 



FIGURA 41. Túberas e folhas de cará-de-pão (Dioscorea alata L.). 




FIGURA 42. Túberas e folhas de cará-do-ar (Dioscorea bulbifera L.). 



Manejo da Cultura

A seguir será descrito o manejo com a cultura do cará-mimoso, o qual recebe maior esmero no manejo, principalmente na região de Joinville, onde seu cultivo é mais expressivo.



Épocas de Plantio

Os melhores meses para o plantio são agosto e setembro, colhendo-se em maio e junho.


Solos

Segundo os agricultores, os melhores solos para seu cultivo são os solos novos, soltos.


Consórcios

O cará mimoso é produzido em monocultivo ou consorciado com o taiá-japão ou com milho. Quando consorciado com o milho, o qual é plantado no espaçamento de 1 X 1m, são colocadas duas plantas de cará entre duas plantas de milho. Assim, cada planta de milho escora duas plantas de cará. O cará é plantado um mês após a semeadura do milho, para que não haja concorrência. Antes da introdução do milho híbrido, o consórcio era realizado com o milho comum, o qual possuía uma estrutura mais robusta, com colmos de maior diâmetro, os quais suportavam o peso das plantas de cará. Com a introdução do milho híbrido, menos resistente, esta prática foi aos poucos abandonada. Quando em monocultivo, este é tutorado em sistema piramidal (Figura 43).



FIGURA 43. Diferentes tipos de tutoramento do cará



Espaçamento

Em monocultivo, as plantas são espaçadas de 0,90 X 0,90m e são tutoradas por três varas de bambu, que escoram uma planta de cada fila (tutoramento piramidal). Estas estruturas são amarradas entre si com arame a uma altura de 2,20m. Neste espaçamento, o número de plantas por hectare é de aproximadamente 12.300.

Quando das capinas entre linhas com microtrator, o espaçamento pode variar, de 1,20m entre linhas e 0,50m entre plantas, com aproximadamente 16.600 plantas por hectare.

Correção do Solo

O calcário não é aplicado visando a correção do solo para a cultura do cará, e sim para outras hortaliças que são cultivadas anteriormente na mesma área.

Preparo para o Comércio 


Os túberas são desenterrados, são retirados os de valor comercial  e em seguida deixam-se dois túberas médios que são novamente enterrados, que brotarão na primavera. Em seguida são encaixotados e lavados ficando prontos ao comércio.

















Os túberas são desenterrados, são retirados os de valor comercial e em seguida deixam-se dois túberas médios que são novamente enterrados, que brotarão na primavera. Em seguida são encaixotados e lavados ficando prontos ao comércio.
Ferreira On 5/10/2016 05:34:00 AM Comentarios LEIA MAIS

domingo, 10 de abril de 2016


Cultivado no sistema convencional o morangueiro pode receber em média 45 pulverizações com agrotóxicos, motivo pelo qual já encontra-se na lista negra dos alimentos campeões de resíduos químicos. Entretanto, a prática de alguns produtores orgânicos tem mostrado que existe viabilidade técnica, econômica, social e ecológica da produção orgânica de morango, como veremos neste artigo baseado no relato de experiência de dois produtores do sul do Brasil.

O morangueiro (Fragaria x Ananassa) é uma cultura típica de climas mais amenos, não sendo muito tolerante a temperaturas elevadas. No Brasil o morango tem se adaptado melhor do sul de Minas Gerais até o Rio Grande do Sul, porém existem experiências até mesmo no cerrado.

Sendo botanicamente classificado como uma hortaliça da família das rosáceas, o morango ainda é mais conhecido como um delicioso frutinho rasteiro, tendo a vantagem de ir para o mercado, na primavera, quando há poucas frutas à venda, alcançando bons preços. Ademais, na indústria é conhecido pelo uso freqüente em iogurtes e sorvetes.


Variedades: Seleção Deve Aliar Produtividade, Resistência e Sabor

A escolha da variedade deve levar em conta a produtividade, a precocidade, a conservação, o sabor e a resistência contra pragas e doenças. Outro ponto importante no sistema orgânico é a adaptação da planta às condições regionais. A experiência do produtor gaúcho Gilson Teixeira – que nos últimos 5 anos vem selecionando mudas de uma das primeiras variedades comerciais lançadas no país – a Campinas, confirma que no sistema orgânico é possível reduzir custos produzindo mudas próprias (Figura 1).

FIGURA 1 – Variedade de morango “Campinas”: boa adaptação ao sistema orgânico. Propriedade de Gilson Teixeira em Caçapava do Sul, RS.
Este procedimento possibilita maior controle sobre o planejamento de produção e melhor adaptação da cultura às condições locais. Apesar de as mudas importadas, basicamente do Chile, apresentarem ótima qualidade comercial, o custo inicial da lavoura aumenta demasiadamente, ficando o produtor altamente dependente de recursos externos ao sistema.

Uma boa opção é o plantio de duas variedades ao mesmo tempo – uma de maior produtividade e resistência e outra de produção mais precoce. Com a primeira obtém-se grande quantidade, com a segunda, bons preços.

Solo e Local de Plantio

O morangueiro é uma cultura especialmente exigente em condições físicas e nutricionais do solo. Produz melhor em solos areno-argilosos, bem drenados, ricos em matéria orgânica e de boa constituição física. A faixa de pH preferido fica entre 5,5 e 6,0. Em solos mais ácidos é recomendável uma calagem.

Sabe-se que a planta do morangueiro é muito delicada, especialmente em relação ao seu sistema radicular, exigindo canteiros muito bem preparados, visto que a maior parte das raízes concentra-se na camada superficial do leito de plantio.

Outro ponto importante é a nutrição do morangueiro. A adubação orgânica traz uma série de benefícios que resultam em melhoria de produtividade e resistência das plantas. Por isso, inicialmente pode-se proceder a adubação orgânica em toda área e, em seguida, realiza-se a preparação de canteiros. Após o levantamento de canteiros, ainda pode-se utilizar o húmus que pode ser espalhado homogeneamente e incorporado com enxada rotativa.

O plantio realizado de março a julho na região Sul, pode ser feito em canteiros com 15 a 20 cm de altura e 0,80 a 1,20 m de largura, num espaçamento entre plantas de 30 x 30 cm, preferentemente no final da tarde para facilitar o pegamento. Outra sugestão interessante é plantar as mudas em “ziguezague”, semelhante aos cultivos da Califórnia, fator que proporciona melhor aproveitamento do espaço útil. Isso permite maior vigor do sistema radicular o que favorece a nutrição e autodefesa das plantas.

Mudas: Multiplicação Própria Diminui Custos

As mudas orgânicas podem ser produzidas na própria propriedade, a partir dos morangueiros que produziram no ano anterior. Este método vem sendo empregado nos últimos 5 anos com excelentes resultados pelo produtor gaúcho Gilson Teixeira que faz a preparação das mudas da variedade “Campinas” por meio do arrancamento dos morangueiros que produziram no ano anterior, fazendo uma seleção criteriosa. Após é realizado uma limpeza e preparação da muda, que consiste na retirada de parte das folhas e do excesso de raízes.

Adubação Orgânica: Conteúdo Ruminal e Húmus são Opções Complementares

Um dos materiais que vem sendo utilizado com sucesso como suprimento de matéria orgânica para o solo é o conteúdo ruminal descartado nas operações de frigorífico. Este subproduto já possui um determinado grau de decomposição e também serve de alimento para as minhocas, possibilitando produção de húmus na própria propriedade.

Além disso, como adubação foliar, os produtores orgânicos têm utilizado preparados a base de biofertilizantes como o supermagro, biogel, extratos de algas marinhas e microorganismos eficientes (EM) que servem para reforçar a resistência das plantas.

Tratos Culturais: Cobertura de Casca de Arroz é Boa Alternativa ao Plástico

O controle de invasoras é essencial, pois o morangueiro sofre muito com a concorrência. A primeira capina é realizada cerca de um mês depois do plantio quando as mudas já estão com brotação nova e bem enraizadas. Como a raiz do morangueiro nasce da parte superior, bem junto ao solo, deve se utilizar uma enxada de lâmina estreita para evitar danos às raízes. Posteriormente, após a colocação da cobertura morta é realizada mais uma ou duas operações de limpeza. Estas consistem no arrancamento das invasoras que persistiram ou que brotaram sobre a cobertura morta.

Como cobertura morta utiliza-se a casca de arroz em substituição ao plástico preto, espalhando-se uma camada de cerca de 3 a 5 centímetros sobre a superfície do canteiro (Figura 2). Esse material, pela sua coloração espanta a maioria dos insetos praga, além de favorecer as condições ambientais locais. Entre os canteiros pode-se utilizar também acículas de pinus.

FIGURA 2 – Cobertura morta com casca de arroz: opção ambientalmente correta em substituição ao plástco preto.



Na época de plantio e em plena produção o morangueiro exige grande umidade do solo com irrigações freqüentes (duas a três vezes ao dia). Diferentemente da maioria dos produtores de morango que utilizam a irrigação por gotejamento, induzindo a planta a um enraizamento mais localizado, na propriedade de Gilson Teixeira a irrigação por aspersão tem mostrado bons resultados permitindo um desenvolvimento radicular mais expressivo.

Pragas e doenças: Prevenir é Fundamental

O ácaro e os pulgões são as principais pragas do morangueiro. A umidade e a temperatura elevadas facilitam o seu aparecimento. Se as pragas atingirem poucas plantas recomenda-se a eliminação das mesmas. O ácaro ataca a face inferior das folhas, causando amarelecimento, secamento ou uma tonalidade pardo-avermelhada. Um sinal típico da presença dos ácaros é um entrelaçamento de fios de seda, sobre o qual eles vivem. Para o controle existem alguns produtos de uso restrito que devem ser consultados junto às certificadoras. O controle dos pulgões é mais fácil, pode-se utilizar desde preparados a base de plantas e minerais até o controle biológico com joaninhas.

As doenças são mais acentuadas em climas quentes e úmidos. O mais grave e disseminado problema fitossanitário é a “mancha das folhas”, causada pelo fungo Mycosphaerella fragariae. O controle pode ser obtido seguindo alguns cuidados: plantio de variedades resistentes; escolha de um local bem arejado e sem excesso de umidade; além de uso de mudas sadias. Em caso de ataque a morangueiros deve-se descartar o material afetado. Se o ataque for às folhas sugere-se a retirada das atingidas.

Outro ponto importante para evitar problemas fitossanitários é a rotação de culturas, pois o morangueiro deve ser retirado do terreno após seu ciclo anual. Não se recomenda o replantio em seguida no mesmo local, nem o uso de plantas da família das solanáceas (tomate, batata, pimentão, berinjela) que podem transmitir viroses e fungos que atacam as raízes do morango. Neste caso, o ideal seria utilizar na rotação um adubo verde ou outra cultura comercial.

Colheita: Maior Parte é Comercializada “in natura”

Nas principais regiões produtoras do Sul do Brasil a colheita é realizada de agosto a dezembro (Figura 3). Após colheita e seleção os morangos são colocados em embalagens plásticas (PET) com capacidade variável dependendo do mercado (200 ou 350 gramas). Neste relato, os morangos orgânicos selecionados para consumo “in natura” representavam cerca de 70 % da quantidade colhida. Os frutos menores ou com pequenas imperfeições que não comprometam sua qualidade, são destinados a produção de polpa ou a venda para industrialização.

FIGURA 3 – Vista geral da cultura do morango orgânico em época  de colheita em  Caçapava do Sul, RS.
Segundo o produtor paranaense Anderson de Almeida, o morango orgânico é vendido em média a 33% acima do similar convencional. O mesmo produtor aponta algumas diferençasmarcantes em relação ao convencional: melhor aparência, maior durabilidade e resistência,melhor sabor e maior aproveitamento final. 

Em síntese, os produtores orgânicos têm obtido produções competitivas comparadas ao sistema convencional. No Paraná, a média de produtividade dos últimos anos tem ficado entre 300 a 500 gramas por planta. Nos Estados Unidos, estudos de GLIESSMAN et. al. (1996), mostraram uma superioridade de produção no sistema convencional. Entretanto, neste mesmo estudo os custos foram significativamente menores no sistema orgânico, fazendo com que o retorno econômico final fosse superior no orgânico, sem contar a melhoria das características biológicas do sistema. As experiências práticas não deixam dúvidas que o sistema de produção de morango orgânico tem sido competitivo em termos técnicos, econômicos e ecológicos, sendo uma alternativa viável para pequenas propriedades familiares.



Ferreira On 4/10/2016 01:16:00 PM Comentarios LEIA MAIS

terça-feira, 10 de maio de 2016

Taiá, mangarito, inhame e cará

Autor: Antônio Henrique dos Santos



Publicação: O trabalho compõe a parte II – Orientações específicas para o cultivo de hortaliças - do Boletim Didático nº 107 “Produção de hortaliças em Santa Catarina”, publicado pela Epagri. Interessados em adquirir a publicação completa e ilustrada com 156 páginas, devem entrar em contato através do site: www.epagri.sc.gov.br




Taiá e mangarito
Essas plantas pertencem à família Araceae. e ao gênero Xanthosoma. Acredita-se que o cultivo de Xanthosoma seja muito antigo no novo mundo (Onwueme, 1978), e provavelmente este gênero originou-se na parte norte da América do Sul (Purseglove, 1972). Já eram cultivados pelos índios guaranis e outras tribos, desde antes do descobrimento.

Os principais representantes cultivados como alimento são o taiá e o mangarito. Em Santa Catarina são cultivados principalmente no Litoral Norte catarinense (Vale do Itajaí, Joinville), por agricultores de origem alemã, que procuraram substitutos para a batatinha.



Inhame do seco ou taiá-japão e Inhame de porco
Também fazendo parte da família Araceae, o gênero Colocasia é formado por dois grandes grupos principais: o grupo eddoes, que possui um túbera principal pequeno (soca) e os túberas secundários (dedos) grandes e pelo grupo dasheen, que possui uma soca grande e pequenos dedos. O taiá-japão pertence ao grupo eddoes e o inhame de porco ou da água, pertence ao grupo dasheen. São plantas originárias do sul da Ásia Central, provavelmente da Índia ou Malásia. Outra característica que distingue os dois gêneros é o formato das folhas, sendo que as Xanthosomas possuem uma fenda que vai até o pecíolo enquanto nas Colocasias a fenda é parcial. Foi introduzida no Brasil por escravos africanos (Figura 33).




FIGURA 33. Folhas de Xanthosoma (esquerda) e Colocasia (direita).



Manejo Tradicional de Mangarito e Taiá e Classificação Popular e Botânica:
Como essas espécies são nativas e não respondem à agricultura denominada “modernizada”, com utilização de insumos como calcário, adubos sintéticos, descrever-se-á o manejo que os produtores tradicionais do Vale do Itajaí e Joinville executam com essas plantas.



Taiá (Xanthosoma sagittifolium Schott)
Os produtores classificam popularmente em cinco variedades, que são: taiá vermelho, taiá branco, taiá cachorro e taiá louco. Botanicamente todas são Xanthosoma sagittifolium. O taiá vermelho e o branco são os preferidos para o consumo e a preferência varia conforme a região. Por exemplo, em Joinville, o preferido do mercado é o branco, enquanto que em Itajaí, o vermelho. Do taiá, podem ser consumidas as folhas, sendo o preferido para esta finalidade, o taiá branco. O taiá cachorro e louco são impróprios para o consumo, com relatos de intoxicação de suínos que consumiram o taiá louco.



Épocas de plantio
Os meses de agosto, setembro e outubro são os melhores meses, sendo colhido em média nove meses após o plantio, nos meses de maio, junho e julho.



Solos

Os solos preferenciais para seu cultivo são áreas novas, de coivara, de encosta, com menor teor de umidade.



Consórcios

O taiá pode ser cultivado à sombra. É comum seu consórcio com bananeiras, cafezais, cará tutorado e outras plantas altas.



Espaçamento
Quando em monocultivo, o espaçamento utilizado é de 1,00 X 0,80 m.



Adubação e correção do solo

Não há recomendação para adubação na ROLAS.

Em experimento de avaliação de nutrição em inhame realizado pela Emepa, chegou-se à seguinte conclusão:

A cultura do inhame respondeu positivamente às adubações de nitrogênio e fósforo, mas não apresentou resposta significativa à adubação com potássio e micronutrientes;

2 - A dose de nitrogênio de 62 kg/ha fracionada em duas parcelas iguais e aplicadas, em cobertura, aos 60 e 90 dias após o plantio, proporciona elevada produtividade, sendo indicada para fertilização nitrogenada da cultura do inhame;

3 - O emprego de 120 kg/ha de P O aplicado totalmente no plantio é indicado para fertilização da cultura do inhame, em solo de textura arenosa a média e de baixa fertilidade.
Assim, pode-se recomendar para as culturas Taiá, mangarito, inhame e cará a seguinte recomendação de adubação: 62 kg/ha de N, 80 kg/ha de P2O5 e 80 kg/ha de K2O.

Produtores entrevistados relatam que em locais onde foi aplicado o calcário, não conseguiram mais colher o taiá, que passou a ser atacado por podridões de solo.



Preparo para o comércio
Para esta finalidade, retiram-se as raízes e lavam-se os túberas em água corrente.


Mangaritos
No Vale do Itajaí e Joinville são cultivados dois tipos de mangaritos: o mangarito branco, classificado como Xanthosoma riedelianum Schott e o mangarito roxo, erroneamente classificado como Caladium Poecile Schott, sendo que o envio de plantas para classificação em recente estudo do autor, irá resultar em nova classificação que será Xanthosoma poecile Schott.



Mangarito Branco (Xanthosoma riedelianum Schott)
Este mangarito é cultivado principalmente em Joinville, sendo encontrado também no Vale do Itajaí, em algumas propriedades.

Épocas de Plantio
As épocas de plantio variam de agosto a outubro e a colheita de maio a julho.


Solos

Os solos cultivados em Joinville são os mesmos utilizados para hortaliças introduzidas, porém, a utilização de calcário tem causado podridões. Em Itajaí, em solos turfosos sem correção alguma com calcário, as plantas desenvolvem-se muito bem.

Consórcios

Na maioria das propriedades onde este mangarito é cultivado, é feito o monocultivo, porém como é uma planta adaptada a sombreamento, possui potencial para ser cultivada em consórcio.

Espaçamento

Os espaçamentos utilizados podem ser: 0,30 m entre plantas e 0,75 m entre linhas e também 0,40m entre plantas e 0,60m entre linhas.

Correção do solo

Calcário não é recomendado para esta cultura.

Preparo para o comércio

As touceiras são colhidas, debulhadas na roça e é feita uma pré-limpeza, com a remoção de raízes e barro aderido. Os túberas são colocados em sacos de ráfia e batidos contra uma tábua para soltar a casca, sendo após lavados em um riacho (Figura 34). Em seguida, são colocados em caixas plásticas ou de madeira e lavados com bombas elétricas ou tratorizadas, com 300 libras de pressão (Figura 35). Este processo remove a casca e o barro e o produto deve em seguida ser refrigerado (Figura 36).


FIGURA 34. Mangarito branco em saco de ráfia sendo sacudido e lavado em riacho.




FIGURA 35 . Mangarito branco lavado sob pressão.




FIGURA 36. Túberas de mangarito branco descascadas por meio de jato de água.



Mangarito roxo (Xanthosoma poecile Schott):

O mangarito roxo é encontrado na região de Blumenau, predominantemente. Em municípios como Ilhota, Luis Alves, Guabiruba, este mangarito predomina.

Épocas de Plantio

Os meses mais indicados para o plantio são agosto e setembro, e a colheita é realizada de maio a junho.

Solos

Os melhores solos para seu plantio são os solos ricos em matéria orgânica, de coivara (Figura 37), que não devem ser expostos ao sol durante o período da tarde. Estas áreas geralmente são de encostas.



FIGURA 37. Mangarito roxo plantado em coivara.

Consórcios

O cultivo pode ser em monocultivo ou consorciado com milho ou aipim.


Espaçamento

O espaçamento utilizado em monocultivo, é de 1 X 1m, e em cultivo consorciado utiliza-se o mesmo espaçamento, porém a cada 4 linhas de mangarito roxo, é inserida uma linha de milho ou aipim.

Correção do solo

A aplicação de calcário não é realizada.


Preparo para o comércio
O preparo para o comércio é realizado, inicialmente na roça, logo após a colheita, quando são separados os túberas secundários. Em seguida é feita uma pré-limpeza de raízes e a remoção do barro, e por fim são separadas as mudas. Na propriedade, as raízes são lavadas em água corrente sem pressão, para a limpeza de pêlos radiculares e barro (Figura 38).


FIGURA 38. Lavação de mangarito roxo com água sem pressão.



Taiá-japão (Colocasia esculenta Schott “Eddoes”)

O taiá-japão é encontrado na região de Joinville e no Vale do Itajaí existindo duas variedades locais de taiá-japão: uma de pecíolo verde-claro (conhecido como “branco”) e outra de pecíolo arroxeado (Figura 58). A variedade de pecíolo arroxeado produz túberas arroxeados e a de pecíolo verde, túberas brancos.

Épocas de Plantio
As épocas de plantio são: julho, agosto, e setembro, preferencialmente agosto. O taiá-japão apresenta um ciclo de vida mais curto que as outras raízes tuberosas, de aproximadamente 6 meses. A colheita estende-se de janeiro a março.

Solos

Os melhores solos para seu cultivo são os argilosos, não-encharcados, em áreas que recebam sombra.

Consórcios

Como é resistente ao sombreamento, pode ser encontrado em quintais agroflorestais, disperso com outras plantas como, por exemplo: batata-doce, tagetes (cravo de defunto), plantas medicinais, árvores frutíferas e ornamentais e também em monocultivo. Em Pirabeiraba é cultivado consorciado com cará.

Espaçamento

O espaçamento no plantio pode variar sendo plantado em monocultivo, com espaçamentos de 1,5 X 0,70m ou de 1 X 0,50m.


Correção do solo

A correção do solo com calcário não é realizada diretamente para esta planta e sim para as plantas que antecederam esta cultura.

Preparo para o comércio

O preparo dos túberas secundários para o comércio é feito através da lavação, remoção das raízes e dos pêlos radiculares. A manipulação destas plantas causa irritação na pele (coceiras), provocada pelo oxalato de cálcio e outros compostos presentes na planta. Para eliminar o oxalato de cálcio, os produtores colhem as plantas e deixam-nas secar por dois dias para após recolherem os túberas.



Cará (Dioscorea sp)

O gênero Dioscorea estava distribuído em eras geológicas primevas nos hemisférios ocidental e oriental, onde se desenvolveu independentemente em cada região (Purseglove, 1972). Pertence à família Dioscoreaceae.


Carás plantados em Santa Catarina
Existem três tipos de carás mais comumente encontrados em Santa Catarina, conforme figuras 40, 41 e 42.



FIGURA 40. Túberas e folha de cará-mimoso (Dioscorea trifida L.). 



FIGURA 41. Túberas e folhas de cará-de-pão (Dioscorea alata L.). 




FIGURA 42. Túberas e folhas de cará-do-ar (Dioscorea bulbifera L.). 



Manejo da Cultura

A seguir será descrito o manejo com a cultura do cará-mimoso, o qual recebe maior esmero no manejo, principalmente na região de Joinville, onde seu cultivo é mais expressivo.



Épocas de Plantio

Os melhores meses para o plantio são agosto e setembro, colhendo-se em maio e junho.


Solos

Segundo os agricultores, os melhores solos para seu cultivo são os solos novos, soltos.


Consórcios

O cará mimoso é produzido em monocultivo ou consorciado com o taiá-japão ou com milho. Quando consorciado com o milho, o qual é plantado no espaçamento de 1 X 1m, são colocadas duas plantas de cará entre duas plantas de milho. Assim, cada planta de milho escora duas plantas de cará. O cará é plantado um mês após a semeadura do milho, para que não haja concorrência. Antes da introdução do milho híbrido, o consórcio era realizado com o milho comum, o qual possuía uma estrutura mais robusta, com colmos de maior diâmetro, os quais suportavam o peso das plantas de cará. Com a introdução do milho híbrido, menos resistente, esta prática foi aos poucos abandonada. Quando em monocultivo, este é tutorado em sistema piramidal (Figura 43).



FIGURA 43. Diferentes tipos de tutoramento do cará



Espaçamento

Em monocultivo, as plantas são espaçadas de 0,90 X 0,90m e são tutoradas por três varas de bambu, que escoram uma planta de cada fila (tutoramento piramidal). Estas estruturas são amarradas entre si com arame a uma altura de 2,20m. Neste espaçamento, o número de plantas por hectare é de aproximadamente 12.300.

Quando das capinas entre linhas com microtrator, o espaçamento pode variar, de 1,20m entre linhas e 0,50m entre plantas, com aproximadamente 16.600 plantas por hectare.

Correção do Solo

O calcário não é aplicado visando a correção do solo para a cultura do cará, e sim para outras hortaliças que são cultivadas anteriormente na mesma área.

Preparo para o Comércio 


Os túberas são desenterrados, são retirados os de valor comercial  e em seguida deixam-se dois túberas médios que são novamente enterrados, que brotarão na primavera. Em seguida são encaixotados e lavados ficando prontos ao comércio.

















Os túberas são desenterrados, são retirados os de valor comercial e em seguida deixam-se dois túberas médios que são novamente enterrados, que brotarão na primavera. Em seguida são encaixotados e lavados ficando prontos ao comércio.

domingo, 10 de abril de 2016

Cultivo de morango orgânico


Cultivado no sistema convencional o morangueiro pode receber em média 45 pulverizações com agrotóxicos, motivo pelo qual já encontra-se na lista negra dos alimentos campeões de resíduos químicos. Entretanto, a prática de alguns produtores orgânicos tem mostrado que existe viabilidade técnica, econômica, social e ecológica da produção orgânica de morango, como veremos neste artigo baseado no relato de experiência de dois produtores do sul do Brasil.

O morangueiro (Fragaria x Ananassa) é uma cultura típica de climas mais amenos, não sendo muito tolerante a temperaturas elevadas. No Brasil o morango tem se adaptado melhor do sul de Minas Gerais até o Rio Grande do Sul, porém existem experiências até mesmo no cerrado.

Sendo botanicamente classificado como uma hortaliça da família das rosáceas, o morango ainda é mais conhecido como um delicioso frutinho rasteiro, tendo a vantagem de ir para o mercado, na primavera, quando há poucas frutas à venda, alcançando bons preços. Ademais, na indústria é conhecido pelo uso freqüente em iogurtes e sorvetes.


Variedades: Seleção Deve Aliar Produtividade, Resistência e Sabor

A escolha da variedade deve levar em conta a produtividade, a precocidade, a conservação, o sabor e a resistência contra pragas e doenças. Outro ponto importante no sistema orgânico é a adaptação da planta às condições regionais. A experiência do produtor gaúcho Gilson Teixeira – que nos últimos 5 anos vem selecionando mudas de uma das primeiras variedades comerciais lançadas no país – a Campinas, confirma que no sistema orgânico é possível reduzir custos produzindo mudas próprias (Figura 1).

FIGURA 1 – Variedade de morango “Campinas”: boa adaptação ao sistema orgânico. Propriedade de Gilson Teixeira em Caçapava do Sul, RS.
Este procedimento possibilita maior controle sobre o planejamento de produção e melhor adaptação da cultura às condições locais. Apesar de as mudas importadas, basicamente do Chile, apresentarem ótima qualidade comercial, o custo inicial da lavoura aumenta demasiadamente, ficando o produtor altamente dependente de recursos externos ao sistema.

Uma boa opção é o plantio de duas variedades ao mesmo tempo – uma de maior produtividade e resistência e outra de produção mais precoce. Com a primeira obtém-se grande quantidade, com a segunda, bons preços.

Solo e Local de Plantio

O morangueiro é uma cultura especialmente exigente em condições físicas e nutricionais do solo. Produz melhor em solos areno-argilosos, bem drenados, ricos em matéria orgânica e de boa constituição física. A faixa de pH preferido fica entre 5,5 e 6,0. Em solos mais ácidos é recomendável uma calagem.

Sabe-se que a planta do morangueiro é muito delicada, especialmente em relação ao seu sistema radicular, exigindo canteiros muito bem preparados, visto que a maior parte das raízes concentra-se na camada superficial do leito de plantio.

Outro ponto importante é a nutrição do morangueiro. A adubação orgânica traz uma série de benefícios que resultam em melhoria de produtividade e resistência das plantas. Por isso, inicialmente pode-se proceder a adubação orgânica em toda área e, em seguida, realiza-se a preparação de canteiros. Após o levantamento de canteiros, ainda pode-se utilizar o húmus que pode ser espalhado homogeneamente e incorporado com enxada rotativa.

O plantio realizado de março a julho na região Sul, pode ser feito em canteiros com 15 a 20 cm de altura e 0,80 a 1,20 m de largura, num espaçamento entre plantas de 30 x 30 cm, preferentemente no final da tarde para facilitar o pegamento. Outra sugestão interessante é plantar as mudas em “ziguezague”, semelhante aos cultivos da Califórnia, fator que proporciona melhor aproveitamento do espaço útil. Isso permite maior vigor do sistema radicular o que favorece a nutrição e autodefesa das plantas.

Mudas: Multiplicação Própria Diminui Custos

As mudas orgânicas podem ser produzidas na própria propriedade, a partir dos morangueiros que produziram no ano anterior. Este método vem sendo empregado nos últimos 5 anos com excelentes resultados pelo produtor gaúcho Gilson Teixeira que faz a preparação das mudas da variedade “Campinas” por meio do arrancamento dos morangueiros que produziram no ano anterior, fazendo uma seleção criteriosa. Após é realizado uma limpeza e preparação da muda, que consiste na retirada de parte das folhas e do excesso de raízes.

Adubação Orgânica: Conteúdo Ruminal e Húmus são Opções Complementares

Um dos materiais que vem sendo utilizado com sucesso como suprimento de matéria orgânica para o solo é o conteúdo ruminal descartado nas operações de frigorífico. Este subproduto já possui um determinado grau de decomposição e também serve de alimento para as minhocas, possibilitando produção de húmus na própria propriedade.

Além disso, como adubação foliar, os produtores orgânicos têm utilizado preparados a base de biofertilizantes como o supermagro, biogel, extratos de algas marinhas e microorganismos eficientes (EM) que servem para reforçar a resistência das plantas.

Tratos Culturais: Cobertura de Casca de Arroz é Boa Alternativa ao Plástico

O controle de invasoras é essencial, pois o morangueiro sofre muito com a concorrência. A primeira capina é realizada cerca de um mês depois do plantio quando as mudas já estão com brotação nova e bem enraizadas. Como a raiz do morangueiro nasce da parte superior, bem junto ao solo, deve se utilizar uma enxada de lâmina estreita para evitar danos às raízes. Posteriormente, após a colocação da cobertura morta é realizada mais uma ou duas operações de limpeza. Estas consistem no arrancamento das invasoras que persistiram ou que brotaram sobre a cobertura morta.

Como cobertura morta utiliza-se a casca de arroz em substituição ao plástico preto, espalhando-se uma camada de cerca de 3 a 5 centímetros sobre a superfície do canteiro (Figura 2). Esse material, pela sua coloração espanta a maioria dos insetos praga, além de favorecer as condições ambientais locais. Entre os canteiros pode-se utilizar também acículas de pinus.

FIGURA 2 – Cobertura morta com casca de arroz: opção ambientalmente correta em substituição ao plástco preto.



Na época de plantio e em plena produção o morangueiro exige grande umidade do solo com irrigações freqüentes (duas a três vezes ao dia). Diferentemente da maioria dos produtores de morango que utilizam a irrigação por gotejamento, induzindo a planta a um enraizamento mais localizado, na propriedade de Gilson Teixeira a irrigação por aspersão tem mostrado bons resultados permitindo um desenvolvimento radicular mais expressivo.

Pragas e doenças: Prevenir é Fundamental

O ácaro e os pulgões são as principais pragas do morangueiro. A umidade e a temperatura elevadas facilitam o seu aparecimento. Se as pragas atingirem poucas plantas recomenda-se a eliminação das mesmas. O ácaro ataca a face inferior das folhas, causando amarelecimento, secamento ou uma tonalidade pardo-avermelhada. Um sinal típico da presença dos ácaros é um entrelaçamento de fios de seda, sobre o qual eles vivem. Para o controle existem alguns produtos de uso restrito que devem ser consultados junto às certificadoras. O controle dos pulgões é mais fácil, pode-se utilizar desde preparados a base de plantas e minerais até o controle biológico com joaninhas.

As doenças são mais acentuadas em climas quentes e úmidos. O mais grave e disseminado problema fitossanitário é a “mancha das folhas”, causada pelo fungo Mycosphaerella fragariae. O controle pode ser obtido seguindo alguns cuidados: plantio de variedades resistentes; escolha de um local bem arejado e sem excesso de umidade; além de uso de mudas sadias. Em caso de ataque a morangueiros deve-se descartar o material afetado. Se o ataque for às folhas sugere-se a retirada das atingidas.

Outro ponto importante para evitar problemas fitossanitários é a rotação de culturas, pois o morangueiro deve ser retirado do terreno após seu ciclo anual. Não se recomenda o replantio em seguida no mesmo local, nem o uso de plantas da família das solanáceas (tomate, batata, pimentão, berinjela) que podem transmitir viroses e fungos que atacam as raízes do morango. Neste caso, o ideal seria utilizar na rotação um adubo verde ou outra cultura comercial.

Colheita: Maior Parte é Comercializada “in natura”

Nas principais regiões produtoras do Sul do Brasil a colheita é realizada de agosto a dezembro (Figura 3). Após colheita e seleção os morangos são colocados em embalagens plásticas (PET) com capacidade variável dependendo do mercado (200 ou 350 gramas). Neste relato, os morangos orgânicos selecionados para consumo “in natura” representavam cerca de 70 % da quantidade colhida. Os frutos menores ou com pequenas imperfeições que não comprometam sua qualidade, são destinados a produção de polpa ou a venda para industrialização.

FIGURA 3 – Vista geral da cultura do morango orgânico em época  de colheita em  Caçapava do Sul, RS.
Segundo o produtor paranaense Anderson de Almeida, o morango orgânico é vendido em média a 33% acima do similar convencional. O mesmo produtor aponta algumas diferençasmarcantes em relação ao convencional: melhor aparência, maior durabilidade e resistência,melhor sabor e maior aproveitamento final. 

Em síntese, os produtores orgânicos têm obtido produções competitivas comparadas ao sistema convencional. No Paraná, a média de produtividade dos últimos anos tem ficado entre 300 a 500 gramas por planta. Nos Estados Unidos, estudos de GLIESSMAN et. al. (1996), mostraram uma superioridade de produção no sistema convencional. Entretanto, neste mesmo estudo os custos foram significativamente menores no sistema orgânico, fazendo com que o retorno econômico final fosse superior no orgânico, sem contar a melhoria das características biológicas do sistema. As experiências práticas não deixam dúvidas que o sistema de produção de morango orgânico tem sido competitivo em termos técnicos, econômicos e ecológicos, sendo uma alternativa viável para pequenas propriedades familiares.



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